Em meio aos treinos de classificação e reuniões para definição da melhor estratégia de corrida que antecederam o Grande Prêmio de Jeddah, na Arábia Saudita, realizado no último domingo, 05 de dezembro de 2021, a equipe Mercedes-AMG Petronas F1 teve um outro assunto em sua pauta, tão importante (ou mais) do que fazer seu piloto Lewis Hamilton ganhar seu 8° título mundial: cuidar de sua reputação.

Isso, pois, na semana anterior ao grande prêmio saudita, a Mercedes anunciou uma nova parceria comercial com a Kingspan, “uma líder global em soluções avançadas de isolamento de alto desempenho e envelopes de construção”, em uma parceria válida pelas últimas duas corridas da temporada e que ajudaria a equipe alemã em seu esforço para se tornar zero carbono.

A qualidade dos produtos da Kingspan – a veracidade e seriedade de seus certificados e conduta de seus executivos, porém, foram objeto de investigação rigorosa por conta de um terrível incêndio na Torre Grenfell, um prédio residencial popular de 24 andares, com 127 apartamentos, situado em North Kensington, Londres, que vitimou 72 pessoas em 2017.

A avaliação das causas do incêndio – dentre elas, o correto uso dos produtos da Kingspan, dentro de suas especificações ou não, ficaram por conta dos órgãos oficiais responsáveis pela apuração da tragédia.

Fato é, porém, que tão logo houve o anúncio da parceria, a Grenfell United, associação representante dos sobreviventes e familiares das vítimas do incêndio, em um comunicado forte e direto, se pronunciou publicamente repudiando veementemente o acordo, pedindo pelo recuo da equipe de automobilismo.

Abaixo alguns trechos:

“Esta não é uma empresa que assume a responsabilidade pelo assassinato de 72 pessoas, ou uma empresa que mostra um compromisso em aprender as lições do que foi descrito como ‘o exemplo mais terrível de falha institucional’, na história recente da Grã-Bretanha.”

“Mas uma empresa imoral, focada exclusivamente no lucro, com total desprezo pela vida humana. Nossa vida, a vida de 72 pessoas inocentes que morreram da maneira mais horrível na Torre Grenfell.”

“Os enlutados e sobreviventes de Grenfell estão, portanto, solicitando que você corte imediatamente seu relacionamento com uma empresa que forçou produtos perigosos no mercado e procurou comercializá-los de forma desonesta, colocando vidas inocentes em risco.”

“Ao fazer parceria com a Kingspan, acreditamos que você está diretamente envolvido neste sistema que coloca o lucro antes da vida humana. Estamos, portanto, buscando garantias de que você tomará medidas afirmativas para se desassociar de Kingspan.”

“Grenfell United gostaria que você compartilhasse a carta com seus acionistas e aguardasse sua resposta. Ficaríamos felizes em facilitar uma reunião com você para discutir isso mais detalhadamente.”

“Não pode ser apenas ‘business as usual’. Esperamos que você possa demonstrar que a ética e os valores existem e que há consequências para as ações.”

A repercussão negativa tomou grandes proporções, envolvendo inclusive, membros do governo inglês.

Michael Gove, secretário nacional de habitação da Grã-Bretanha, também mostrou indignação: “Muito decepcionado com a Mercedes por aceitar o patrocínio com a empresa de revestimento Kingspan ainda durante a investigação em curso sobre Grenfell. Vou escrever para a Mercedes e pedir que reconsiderem. A comunidade de Grenfell merece algo melhor”, afirmou.

No dia seguinte das críticas empreendidas pela associação Grenfell United e milhares de manifestações contrárias à parceria nas redes sociais, o chefe da equipe MercedesF1, Toto Wolff, assinou um pedido de desculpas e prestou esclarecimentos:

“Em nome de toda a equipe, gostaria de pedir sinceras desculpas a vocês pelo sofrimento adicional que este anúncio causou. Nunca foi nossa intenção.

O trabalho do inquérito público para apurar as causas completas da tragédia é crucialmente importante. Antes de concluir nossa parceria, nos envolvemos com a Kingspan em profundidade para entender o papel de seus produtos no que aconteceu em Grenfell.

A Kingspan afirmou que eles não desempenharam nenhum papel no projeto ou construção do sistema de revestimento na Torre Grenfell, e que uma pequena porcentagem de seu produto foi usada como substituto sem seu conhecimento em parte do sistema que não estava em conformidade com as regulamentações de construção e era inseguro.

Eu sei que isso não muda de forma alguma a terrível tragédia que você sofreu, ou a dor profunda e contínua sentida em sua comunidade, e gostaria de agradecer à Grenfell United pela oferta de me encontrar pessoalmente para que eu aprenda e entenda melhor”.

Aparentemente a equipe germânica buscou informações sobre o ocorrido com sua nova parceira, aceitou os esclarecimentos, e seguiu com o contrato, ciente ou não das críticas que poderia sofrer.

Essa situação, trazida para o ambiente corporativo de empresas, provoca as seguintes reflexões:

– temos o nível de informações comerciais que gostaríamos de ter sobre nossos fornecedores, prestadores de serviço, parceiros e clientes?

– a depender da situação, como uma associação de marcas em um projeto de patrocínio, seria o caso de se ter um histórico reputacional do parceiro?

– e se verificado algum ponto de alerta sobre o histórico técnico e comercial dessa empresa terceira, qual o nível de tolerância que sua empresa vai aceitar?

– e seus acionistas e investidores, devem ser cientificados dessa situação?

– havendo uma repercussão negativa, qual a providência a ser adotada?

– seria o caso de se estabelecer previsões contratuais, como um way out, para situações como a vivenciada pela MercedesF1Team?

Inúmeros são os questionamentos e pontos a serem observados, mas a análise prévia de conformidade de terceiros com quem vamos nos associar, seja comercialmente – como um patrocínio, seja na cadeia de suprimentos – como um fornecedor, se mostra cada vez mais necessária.

Se a decisão for tomar o risco, que seja um risco consciente.

Na quarta-feira, 08 de dezembro de 2021, a equipe Mercedes-AMG Petronas F1, que teve seu piloto Lewis Hamilton vencedor do GP da Arábia Saudita, após ter pedido desculpas à associação das vítimas do incêndio Grenfell e certamente depois de avaliar a exposição de sua marca e reputação nesse episódio, divulgou nota indicando o fim da parceria com a Kingspan, aparentemente por mútuo acordo.

 

 

 

 

MARCO AURELIO OROSZ

marco.orosz@fius.com.br