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Imobiliário

O avanço da moradia individual transforma o mercado imobiliário

Mais brasileiros vivem sozinhos, ampliando a demanda por imóveis adaptados a diferentes idades, rotinas e formas de morar.

Por Luis Felipe Dalmedico Silveira, Victória Garcia Nunes Rosa, Larissa Kainy de Oliveira

A moradia individual ganhou espaço no Brasil e começa a produzir efeitos cada vez mais visíveis no mercado imobiliário. Entre 2000 e 2022, o número de pessoas morando sozinhas passou de 4,1 milhões para 13,7 milhões, praticamente triplicando em pouco mais de duas décadas. Quase uma em cada cinco unidades domésticas do país já é ocupada por uma única pessoa. Nesse cenário, os apartamentos compactos ganham relevância, mas entender essa transformação exige olhar além do tamanho dos imóveis.

A mudança não está concentrada apenas entre os jovens que deixam a casa dos pais. Dados do IBGE mostram que, em 2023, somente 12,1% das pessoas que moravam sozinhas tinham entre 15 e 29 anos. Outros 47% estavam entre 30 e 59 anos e 40,9% tinham 60 anos ou mais. Entre as mulheres que viviam sozinhas, 55% já estavam nessa última faixa etária.

Isso significa que a moradia individual reúne públicos bastante diferentes. Um jovem pode buscar proximidade do trabalho, mobilidade e acesso a serviços. Uma pessoa mais velha pode valorizar acessibilidade, segurança, facilidade de manutenção e atividades próximas de casa. Já alguém que passou por uma separação pode precisar de um imóvel menor, mas ainda com espaço para receber os filhos. Em 2024, por exemplo, o Brasil registrou 428.301 divórcios, segundo o IBGE.

Para o mercado imobiliário, essa diversidade muda a lógica de desenvolvimento dos empreendimentos. Não basta reduzir a metragem e replicar a mesma planta para todos os públicos. Localização, áreas comuns, acessibilidade, serviços disponíveis no entorno, mobilidade e configuração interna passam a ter pesos diferentes conforme a rotina de cada morador.

Ao mesmo tempo, os apartamentos compactos já ocupam parcela importante da oferta em grandes centros. Em São Paulo, imóveis entre 30 e 45 metros quadrados representaram 66% dos lançamentos residenciais em junho de 2026, enquanto unidades com menos de 30 metros quadrados responderam por outros 18%. A expansão desse formato, porém, não pode ser explicada apenas pela preferência por espaços menores. O preço dos imóveis e a capacidade de pagamento também influenciam diretamente essa escolha.

Há ainda um componente de investimento. Apartamentos compactos localizados em regiões com boa infraestrutura podem atender estudantes, profissionais, pessoas separadas, idosos e moradores temporários, o que também amplia o interesse de investidores voltados à locação. Nesse contexto, comprador e futuro ocupante nem sempre são a mesma pessoa, e o sucesso comercial de unidades menores não significa, necessariamente, uma preferência generalizada por morar em espaços reduzidos.

A transformação da moradia individual mostra, portanto, que o principal desafio do mercado imobiliário não está apenas em construir imóveis menores. Está em compreender quem vai ocupá-los. Pessoas de diferentes idades e momentos de vida podem procurar metragens semelhantes, mas com necessidades completamente distintas.

Essa leitura tende a ser cada vez mais relevante para incorporadores, investidores e proprietários. Em um país com famílias menores, população em envelhecimento e novos formatos de vida doméstica, pensar o imóvel a partir do perfil de quem efetivamente o utiliza pode ser tão importante quanto definir sua localização ou metragem. O futuro da habitação não será marcado apenas por casas menores, mas por imóveis mais conectados às diferentes formas de viver.