Escala 6x1, guerra e tributos pressionam a construção civil
Jornada de trabalho, custos da construção e incertezas tributárias podem afetar preços, prazos e novos lançamentos imobiliários.
By Luis Felipe Dalmedico Silveira, Victória Garcia Nunes Rosa, Larissa Kainy de Oliveira
O mercado imobiliário brasileiro começou 2026 com números positivos. Segundo o estudo Indicadores Imobiliários Nacionais, divulgado trimestralmente pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em parceria com a Brain Inteligência Estratégica, foram vendidas 110.722 unidades residenciais no país no primeiro trimestre de 2026. O número representa alta de 4,1% em relação ao mesmo período de 2025. No acumulado de 12 meses, as vendas chegaram a 438.012 unidades. O levantamento, que completa dez anos de série histórica, acompanha 221 cidades, incluindo capitais e grandes regiões metropolitanas. Os dados mostram um setor resiliente. Mas também revelam um ponto de atenção: o bom desempenho atual não elimina riscos relevantes para os próximos anos.
A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas tem impacto direto na construção civil. O tema não afeta apenas a organização interna das empresas. Segundo representantes da CBIC, uma mudança rápida poderia exigir cerca de 288 mil novos trabalhadores para manter o ritmo atual de produção. O problema é que o setor já enfrenta escassez de mão de obra qualificada. Além disso, a entidade estima que a redução da jornada poderia elevar em até 10% o custo total de imóveis do Minha Casa, Minha Vida, justamente um segmento em que preço, margem e financiamento são especialmente sensíveis.
Outro ponto relevante está nos insumos. A CBIC alertou que o Índice Nacional de Custo da Construção, o INCC, acumulado em cerca de 6% nos últimos 12 meses, pode chegar a 9% se continuar a pressão sobre materiais como cimento, concreto, argamassa e PVC. Parte dessa pressão decorre de fatores externos, como as tensões no Oriente Médio, que afetam as cadeias de suprimento e os preços dos insumos. Na prática, quando os materiais ficam mais caros, o impacto pode aparecer em toda a cadeia: incorporadoras revisam orçamentos, construtoras ajustam cronogramas e o consumidor pode encontrar imóveis mais caros.
A insegurança tributária também merece atenção. A Reforma Tributária já foi aprovada em linhas gerais, mas sua aplicação prática ainda depende de regulamentação clara. Enquanto isso não ocorre, o mercado imobiliário tem dificuldade para calcular com precisão os impactos nos projetos futuros. Em um setor que exige planejamento de longo prazo, qualquer incerteza sobre carga tributária, créditos, alíquotas e regime de transição pode afetar a modelagem econômica dos empreendimentos. Isso vale especialmente para projetos previstos para os próximos anos, quando as novas regras começarão a produzir efeitos mais concretos.
Os dados da CBIC mostram um paradoxo: o mercado imobiliário está aquecido, mas opera em um ambiente de crescente pressão. Vendas fortes e demanda consistente convivem com aumento dos custos da construção, incerteza trabalhista, risco de atraso nos prazos de entrega e dúvidas tributárias. Para incorporadoras, construtoras, investidores e compradores, o momento exige leitura cuidadosa do cenário. Mais do que acompanhar o volume de vendas, será necessário observar a capacidade real de entrega, a evolução dos custos e a qualidade da estrutura contratual dos empreendimentos. Em um mercado sensível a juros, mão de obra, insumos e tributos, segurança jurídica e planejamento deixam de ser diferenciais e passam a ser condições essenciais para construir com previsibilidade.
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